Profeta Jeremias – C. Portinari

 

A desfigurada se veste de andrajos.
As joias preciosas perderam o brilho,
Caminham errantes, no centro do erro,
Cantando louvores que exaltam a Obra.
Coitados dos filhos! São filhos traídos!
De andrajos coberta, esconde fortunas.
De engano apascenta os filhos do ventre.
Doideja nos anos. Não cumpre as promessas.
Errando o Caminho, não encontra a saída.
Fechou-se em espasmos, negrumes e tranças.

Meu canto é de dores.

Gente descontente e contaminada!
Lisonjas escondem demônios… seduzem.
Na porta o pecado escancara suas presas.
Nem sabem dos medos… perigos que os cercam.
Nem sabem quem são e nem sabem do engano.
Nenhum dos obreiros conhece a si mesmo.
O “culto profético” aumenta as feridas.
O engano os envolve e a morte os espreita.
O fraco está preso na insana heresia.
O fruto do erro a ninguém aproveita.

Meu canto é de dores.
Morrer de vergonha.

O que se espera na hora do espanto?
O tão prometido falhou. Não se cumpre.
Onde as Déboras moram? Onde se escondem?
Onde mestres distorcem a Grande Verdade,
Os sonhos insanos exibem loucuras,
Pastores incitam profanas vaidades,
Por que Huldas se calam, não gritam às Alturas?
Que os santos levantem em busca da Graça.
Que os sujos mergulhem em sua própria desgraça.
Tão certo o Juízo! Ele vem! Sem tardança!

Meu canto é de dores.
Morrer de vergonha.
Viver de esperança…