A expectativa e proximidade da época natalina nos levam, especialmente, às narrativas evangélicas de Mateus e Lucas.

Algo aconteceu no espírito, alma e corpo (nesta ordem) da jovem Maria a ponto de se expressar alegre, confiante e profeticamente. A fé que opera pelo amor está notavelmente presente em sua profecia. As fontes da salvação jorram água pura sobre ela.

Como sempre, Deus continua escolhendo e chamando alguém para perto de Si. Convido o leitor/ouvinte para ver como que do lado de fora a ação divina em Maria. E eis o milagre!

Neste artigo, anoto alguns dados fornecidos por Lucas (1.46-55 – RA-VULGATE) entremeados com Magnificat em ré maior – BWV 243 – J. S. Bach (1685-1750) e o comentário que aparece ao final. Links inclusos.

Que o seu milagre chegue logo…

Comentário

A anunciação da vinda de João (1.5-25), a anunciação de Jesus (1.26-38), a visita de Maria a Isabel (1.39-56), o nascimento de João (1.57-80) e o nascimento de Jesus (2.1-20) são apresentados por Lucas em uma sucessão de relatos que envolvem o nascimento de Jesus, o Cristo de Deus.

A chegada de Maria à casa de Isabel é emocionante para ambas. A anfitriã recebe a jovem com um cântico inspirado (1.39-45). Isabel, pelo Espírito Eterno, reconhece que Maria está grávida por intervenção divina e que a redenção de Israel estava em curso.

A narrativa lucana lembra-nos o antigo espírito profético que atuou em Ana (1 Sm. 2.1-10) e nos mostra a primeira referência ao termo “salvador” (gr. soter – v.47) que encontramos no Novo Testamento. Maria, como pecadora, declara: “Deus meu Salvador”.

Este título aparece nas Escrituras Hebraicas para se referir as ações do SENHOR em favor de seu povo. Por exemplo, as profecias de Isaías (relacionados peculiarmente à vinda do Messias) e nos Salmos. Em seu espírito a jovem reconhece a imperiosa necessidade de ser salva não por obras da Lei mas mediante a fé.

Em seu cântico Maria enfatiza que Deus não somente é capaz de escolher determinada mulher estéril para conceder-lhe um menino profeta; mas pode intervir, sem auxilio de homem, em outra mulher de modo que esta veio a conceder misteriosamente o Salvador da Humanidade. Portanto, Maria anuncia a intervenção de Deus no curso da História.

Em que nível espiritual a jovem Maria vivia? Entendo (digo ao meu modo) que o hagiógrafo quer nos mostrar o alto nível espiritual em que Maria vivia; mas este é o nível da fé que opera pelo amor. Assim, a humildade da jovem é exaltada por Deus, especialmente pelo fato de haver sido levada à obediência, apesar das circunstâncias desfavoráveis. Enfim, Deus não olha para aparência mas para o interior. Ele chama para perto de Si a quem Ele quiser e na medida da fé que Ele concede a cada um visando a um fim proveitoso. Deste modo, no curso da “igreja de Deus…corpo de Cristo” a humildade e a obediência distinguem o cristão genuíno.

Esta profecia aponta o caminho para a bem-aventurada felicidade daquele que crê [exerce fé] em Jesus, o Messias. E desenha o esforço do Altíssimo para estabelecer o Reino de Deus.

Nos dias de festas a liturgia luterana exigia o “Magnificat” em alemão mas na época natalina era cantado em latim.

Por último, impossível ouvir este texto sem repetir e repetir… até absorver o máximo do Evangelho que proclama a Redenção.

Sem dificuldades maiores o leitor-ouvinte poderá acompanhar as frases do Evangelho (RA-VULGATE) seguem o texto musical. E os cantores… de excelente nível técnico.

Ton Koopman e Amsterdam Baroque Orchestra and Soloists estão magníficos. Do início ao fim.

BOM PROVEITO!

“Magnificat”

Lucas 1.46-55 (RA-VULGATE)

Bach – Magnificat – 01 – Magnificat
46 Então, disse Maria: A minha alma engrandece ao Senhor,
46 et ait Maria magnificat anima mea Dominum

Bach – Magnificat – 02 – Et exsultavit
47 e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador,
47 et exultavit spiritus meus in Deo salutari meo

Bach – Magnificat – 03-04-Quia respexit-Omnes generationes
48 porque contemplou na humildade da sua serva. Pois, desde agora, todas as gerações me considerarão bem-aventurada,
48 quia respexit humilitatem ancillae suae ecce enim ex hoc beatam me dicent omnes generationes

Bach – Magnificat – 05 – Quia fecit mihi
49 porque o Poderoso me fez grandes coisas. Santo é o seu nome.
49 quia fecit mihi magna qui potens est et sanctum nomen eius

Bach – Magnificat – 06 – Et misericordia
50 A sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que o temem.
50 et misericordia eius in progenies et progenies timentibus eum

Bach – Magnificat – 07 – Fecit potentiam
51 Agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que, no coração, alimentavam pensamentos soberbos.
51 fecit potentiam in brachio suo dispersit superbos mente cordis sui

Bach – Magnificat – 08 – Deposuit
52 Derribou do seu trono os poderosos e exaltou os humildes.
52 deposuit potentes de sede et exaltavit humiles

Bach – Magnificat – 09 – Esurientes
53 Encheu de bens os famintos e despediu vazios os ricos.
53 esurientes implevit bonis et divites dimisit inanes

Bach – Magnificat – 10 – Suscepit Israel
54 Amparou a Israel, seu servo, a fim de lembrar-se da sua misericórdia
54 suscepit Israhel puerum suum memorari misericordiae

Bach – Magnificat – 11 – Sicut locutus
55 a favor de Abraão e de sua descendência, para sempre, como prometera aos nossos pais.
55 sicut locutus est ad patres nostros Abraham et semini eius in saecula

Bach – Magnificat – 12 – Gloria Patri
Gloria Patri, gloria Filio,
gloria et Spiritui Sancto!
Sicut erat in principio et nunc et semper
et in saecula saeculorum.
Amen.

Magnificat em ré maior – BWV 243

J. S. Bach (1685-1750)
link 1
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Parte integrante da liturgia luterana desde os tempos de Bach, o “Magnificat”, um dos três cânticos do Novo Testamento, é a inspirada saudação de Maria assim que chega à casa de Isabel (Lucas 1:46-55). Ordinariamente cantado a capella, de maneira homofônica e em alemão, nos dias de festa e na época do Natal era cantado no latim original, a várias vozes e acompanhado de instrumentos.

O Magnificat BWV 243 de Johann Sebastian Bach (1685-1750) foi estreado na celebração de Vésperas do Natal de 1723, o primeiro Natal que Bach passou em Leipzig, e constituiu, de certa forma, uma prova de aptidão musical do novo chantre da Igreja de S. Tomás e diretor musical da cidade, então uma cidade comercial próspera com uma intensa vida no plano cultural e cultual. Mas o evento marcou também, nesse contexto, a confissão pública de um cristão que viria a pôr todo o seu conhecimento da arte musical ao serviço da fé. É deste período um impressionante acervo de cantatas e de obras para órgão que chegou ao nosso conhecimento, compostas ao ritmo semanal para o culto luterano, e que fundamentam o reconhecimento generalizado de Bach como um teólogo em música.

Estamos em presença de uma obra para coro a cinco vozes e orquestra, cuja estrutura faz corresponder a sucessão de andamentos aos versículos do cântico evangélico, extraído do 1º capítulo do Evangelho de S. Lucas, versículos 46 a 55. Não exigindo recursos extraordinários, a peça afirma-se sobretudo por uma alegria transbordante que está presente do primeiro ao último compasso, mas também pela sua dimensão equilibrada e pela clareza da mensagem, que se desenvolve em crescendo, através de três conjuntos ária-coro que o primeiro e o último andamento, os coros mais jubilosos, emolduram.

Neste trabalho, Bach utiliza uma orquestra com duas flautas, dois oboés, três trompetes, tímpanos, órgão, fagote e cordas completas. Na parte vocal a escrita é a cinco vozes tanto para solistas quanto para o coro. Às estruturas imitativas dos movimentos corais alternam-se os solos, o dueto e o terceto, de maneira a obter variedade e riqueza também pela alternância instrumental. Tudo isto concorre para gerar o equilíbrio e a simetria tão caros a Bach, para quem a música sacra era a expressão da compreensão de uma ordem universal geométrica, divina e, portanto, musical.

O coro inicial é particularmente representativo da música mais alegre de Bach, transbordando vitalidade e frescura, como expressão perfeita daquele que descobriu a felicidade. Essa atitude surge logo desde o prelúdio instrumental que prepara a intervenção do coro, e prolonga-se para além desta, como que assegurando a ressonância da mensagem, numa clara subsidiariedade da orquestra relativamente ao coro. É também um andamento ilustrativo da simetria tão cara à escrita de Bach, que aqui atribui exatamente igual número de compassos à orquestra e ao coro.

A ária do soprano, Et exultavit, é um andamento breve, sobre um compasso que Bach utiliza com freqüência para exprimir motivos de alegria. Destaca-se o especial tratamento das expressões Exultavit e Salutari. A ausência do da capo é compensada pelo poslúdio instrumental.

Segue-se-lhe outra ária, Quia respexit, acompanhada apenas pelo oboé de amor, que contribui para criar um ambiente propício ao canto da humilde escrava do Senhor, para o qual também concorre uma escrita figurativa que desenha em movimento descendente todos os membros de frase desta ária.

Em sentido contrário, surge o segundo coro, que trás a resposta à expressão espontânea da humildade de Maria repetindo até à exaustão Omnes generationes, numa interessantíssima escrita imitativa.

A ária Quia fecit mihi magna, para baixo solo, tem apenas acompanhamento do contínuo, numa sobriedade contrastante com a exuberância orquestral e a elaboração harmônica do coro precedente.

O andamento Et misericórdia eius é confiado a um dueto de alto e tenor, acompanhado por duas flautas, dois violinos, viola e contínuo.

O coro intervém de novo com o verso Fecit Potentiam, numa linha de coloratura que é apresentada sucessivamente pelos tenores, pelos contraltos, pelos segundos sopranos, pelos baixos e pelos primeiros sopranos, sempre acompanhada por acordes incisivos, após o que as vozes se unem num gesto assumidamente figurativo a propósito da dispersão, em Dispersit superbos, e o andamento culmina numa sólida secção homófona assente numa seqüência harmônica com acordes de quinta aumentada, sétima maior e sétima diminuta.

Na linha de desenvolvimento dos andamentos anteriores, a ária Deposuit, para tenor, recorre a uma orquestração mínima, reduzida aos violinos, que tocam em uníssono, e ao contínuo. É uma ária de bravura que exprime a ação divina ao destronar os poderosos e exaltar os humildes, para o que Bach utiliza, respectivamente motivos descendentes e ascendentes. A mesma dinâmica figurativa faz corresponder à palavra Potentes um desenho melódico em movimentos descendentes e, pelo contrário, justifica o trajeto para uma tessitura mais aguda em Exaltavi, para exprimir a aspiração e recompensa dos humildes.

A ária de alto que se segue, Esurientes, sugere uma visão do Reino dos Céus que acolhe os famintos, para o que em muito contribui a presença das duas flautas e os pizzicati no baixo, depois assumidos também pelas flautas. O movimento descendente em divites dimisit inanes (despediu os ricos de mãos vazias) é de novo um desenho figurativo muito claro.

Aproximamo-nos do final da obra com um concertante para três vozes brancas, Suscepit Israel. Destaca-se a presença do oboé, ao qual é confiado o cantus firmus de uma antiga linha salmódica, como que a evocar o primitivo cantochão das comunidades cristãs.

A evocação do passado continua simultaneamente ao nível do texto do último verso do cântico evangélico, que contempla a tradição (Sicut locutus est) e na escrita musical, já que Bach recorre agora, depois da linha salmódica no andamento anterior, ao puro estilo a cappella, numa fuga acompanhada apenas pelo contínuo que prepara o coro conclusivo.

O último andamento corresponde à doxologia final com que se terminam os salmos e cânticos na liturgia das horas. Numa primeira secção, o coro irrompe com a expressão Gloria e através de entradas sucessivas de vozes eleva a aclamação ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo. No caso das duas primeiras figuras, as vozes surgem em movimento ascendente e no caso do Espírito Santo em movimento descendente. A orquestra apresenta-se aqui num plano mais recuado, permitindo ao coro júbilos de mera contemplação. A segunda secção surge nitidamente como uma atualização do coro inicial, não só da sua ambiência mas também na utilização do segundo motivo do Magnificat e o coro vem a terminar sobre notas longas em Saeculorum como quem aponta simbolicamente o caminho para a bem-aventurada eternidade.